sábado, 27 de maio de 2017

Lisboa: o sol, os turistas e os jacarandás

Lisboa: Avenida D. Carlos I
Há uma onda de optimismo que está a atravessar a sociedade portuguesa e é em Lisboa que mais se sente essa festiva e atraente aragem. Há um mar de turistas que procuram o nosso sol e a nossa tranquilidade, que desfrutam o azul do Tejo e o vai-vém dos cacilheiros, que se estendem pelas escadarias da Ribeira das Naus ou se refrescam no Cais das Colunas. Há uma gastronomia de muitos sabores a desafiar os visitantes e há inúmeras esplanadas que se enchem de jovens e de menos jovens falando línguas muito diversas. A oferta cultural da cidade de expressão popular ou erudita, é muito diversificada e muito convidativa, não deixando ninguém indiferente. A cordialidade dos lisboetas parece insuperável. Os bairros históricos e os museus enchem-se e, mesmo antes das festas da cidade, Lisboa já tem um ar de festa e uma invulgar aparência cosmopolita.
Nesta altura do ano, a cidade parece enfeitar-se e deslumbra com os jacarandás floridos, até porque parecem aumentar todos os anos as ruas, os jardins e as praças que os adoptaram. Lisboa parece ser, realmente, a cidade dos jacarandás. Iluminados pela luz única que a cidade tem, os jacarandás floridos inspiram os fotógrafos e são um elemento adicional para enriquecer a cidade, embora esse deslumbrante festival de cor só dure até meados de Junho. Já lá vai o tempo em que podíamos identificar as mais belas manchas de jacarandás floridos, mas hoje estão por toda a cidade.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Arte e erudição na música portuguesa

Um grande concerto ontem realizado no Teatro Municipal de São Luiz em Lisboa, assinalou os 50 anos de carreira de Pedro Caldeira Cabral, um músico e compositor reconhecido no plano internacional e que, desde há muitos anos, é um símbolo da erudição na música portuguesa.
Ouço a música de Pedro Caldeira Cabral desde há muitos anos e não faltei.
O espectáculo intitulou-se Guitarra de ontem e de hoje e teve como tema a guitarra portuguesa e a sua valorização e promoção, como um importante legado patrimonial da cultura portuguesa. O músico partilhou o palco com Ricardo Rocha e Luís Marques, como convidados especiais, enquanto o excelente programa que foi apresentado incluiu a música antiga, a nova música e a música tradicional.
Pedro Caldeira Cabral nasceu em Lisboa em 1950 e tem uma longa vida de estudo de alaúde, viola de gamba e outros instrumentos musicais, sendo um conhecido intérprete de música antiga em instrumentos históricos.
Em reconhecimento pelo seu importante papel na cultura portuguesa e como expressão da gratidão da nossa comunidade pelo seu labor e talento, o Presidente da República decidiu agraciar Pedro Caldeira Cabral com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D.  Henrique.  E fez muito bem. O meu aplauso.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Economia: a Centeno, o que é de Centeno

A notícia foi divulgada ontem e surpreendeu toda a gente. O poderoso Wolfgang Schäuble, que desde 2005 é o Ministro das Finanças da Alemanha, disse esta terça-feira que Mário Centeno é o “Ronaldo do Ecofin”, o grupo de ministros das Finanças da União Europeia. O jornal i fez uma fotomontagem e, na capa da sua edição de hoje, apresenta Centeno travestido de Ronaldo. 
Durante alguns anos o ministro alemão destacou-se pela arrogância com que se referiu a Portugal, abusando da passividade e do estilo bajulador de Vítor Gaspar e de Maria Luís Albuquerque. Schäuble humilhou Portugal muitas vezes com as suas frequentes ameaças de sanções económicas e, mais recentemente, com a sua hostilidade para com o actual governo português. A desconfiança tem sido permanente e Schäuble até chegou a dizer que as coisas só correram bem em Portugal até ao dia em que o actual governo de António Costa chegou ao poder. Porém, Schäuble teve que meter a viola no saco e, antes tarde que nunca, rendeu-se às evidências e ao seu preconceito ideológico.
Com os bons resultados económicos a aparecer em Portugal, como consequência de muitas circunstâncias mas, sobretudo, devido ao clima de optimismo e confiança que se instalou na sociedade portuguesa pelo estilo do par Marcelo & Costa, o ministro Schäuble parece ter aprendido e ter-se rendido ao mais qualificado dos 23 Ministros das Finanças que Portugal já teve desde 1974, pois dos sete que se doutoraram, só Mário Centeno o fez em Harvard, provavelmente a melhor universidade de economia e gestão do mundo. Por isso, Schäuble cedeu. Portanto, a Centeno, o que é de Centeno.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A dura guerra no mercado do armamento

O presidente Donald Trump está de visita a alguns países do Médio Oriente e da Europa. Começou pela Arábia Saudita, onde assinou 34 acordos comerciais em domínios diversos como a defesa, o petróleo e o transporte aéreo, no montante de 380 mil milhões de dólares, um valor que é aproximadamente o dobro do produto interno bruto anual português. É uma coisa impressionante.
Segundo o jornal económico francês La Tribune foi um "méga-cadeau de bienvenu à Donald Trump" que, com entusiasmo, afirmou: "C'était une journée formidable ! Des centaines de milliards de dollars d'investissements aux Etats-Unis et des emplois, des emplois, des emplois".
Deste montante, cerca de 110 mil milhões de dólares destinam-se à compra de armamento, onde se inclui material de defesa antimíssil, navios militares, aviões tácticos e helicópteros. Naturalmente, os Estados Unidos afirmaram desejar que a Arábia Saudita tenha um papel mais importante na segurança da região do Golfo, que dizem estar ameaçada pelo Irão, mas que também tenha um contributo mais significativo nas operações contra o terrorismo, sobretudo na luta contra o Estado Islâmico e a Al-Qaida.
A Arábia Saudita é um dos maiores importadores mundiais de armamento e, com os contratos agora anunciados com os americanos e o reforço da aliança entre Washington e Ryad, a França vai perder uma enorme fatia do seu mercado do armamento. A luta por esse mercado é dura, como mostram os acordos agora assinados e que vão penalizar muito a economia francesa.
Porém, estas notícias mostram que há uma lógica perversa na política mundial, isto é, para criar empregos e fomentar as suas exportações, alguns países alimentam guerras e o consumo de material de guerra, como se tem visto no Médio Oriente. Esta economia mata, como escreveu o Papa Francisco na sua exortação evangélica Evangelii Gaudium.

sábado, 20 de maio de 2017

O tempestuoso vento que sopra do Brasil

As notícias que nos chegam do Brasil são demasiado preocupantes. As revelações sobre a corrupção que penetrou em todos os escalões da política brasileira e que levaram ao afastamento de Dilma Rousseff da presidência do Brasil e à permanente suspeita sobre Luiz Inácio Lula da Silva, já tinham mostrado uma invulgar dimensão do problema. Era previsível, portanto, que a história continuasse. E continuou. Sucederam-se novas informações obtidas quase sempre através da figura da "delação premiada", que trouxeram ao conhecimento público muitos mais casos que revelam subornos e propinas a milhares de políticos de partidos de todo o espectro parlamentar brasileiro. Ao contrário do que acontece um pouco por todo o mundo em que a corrupção é a excepção, no Brasil a corrupção é a regra.
Um dia destes foi revelada uma conversa entre o actual presidente Michel Temer e um empresário de apelido Batista, no qual aquele parece autorizar o pagamento de subornos. O Supremo Tribunal Federal abriu uma investigação contra Temer sustentada em suspeitas de que cometera crimes de obstrução judicial, organização criminosa e corrupção passiva, mas o presidente do Brasil apressou-se a fazer uma declaração ao país a anunciar que não vai renunciar ao seu cargo. Era de esperar.
Na sua última edição a revista Veja invoca a grandeza do Brasil e a necessidade de grandeza dos homens públicos que ocupam o aparelho de Estado, porque é urgente a rápida regeneração da vida pública brasileira. Porém, a ideia de grandeza pode ter subjacente a ideia de homens providenciais e é preciso muito cuidado com isso.  A revista também lança um veemente apelo para que se acabe com esta lamentável situação, porque os milhões de brasileiros honestos não merecem ser punidos pela desfaçatez e pela ganância dos poderosos. É verdade. No entanto, a revista não aponta uma saída para esta situação que, naturalmente, só pode ser encontrada através da vontade popular expressa através do voto democrático. Só pode ser esse o caminho a seguir pelos nossos irmãos brasileiros.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

R.I.P. Mário Carrascalão

Timor Leste está de luto porque  morreu Mário Carrascalão quando ontem conduzia a sua viatura próximo do bairro do Farol na cidade de Díli e foi acometido de doença súbita. Tinha 80 anos de idade e morreu um dia depois de ter sido galardoado com a mais alta condecoração timorense, que lhe foi entregue por Taur Matan Ruak, um dos antigos líderes da guerrilha e actual chefe de Estado da República de Timor Leste.
Mário Carrascalão nasceu em 1937 em Venilale e era filho de um anarquista português que foi deportado para Timor, tendo vindo para Portugal para completar o ensino secundário e para frequentar o Instituto Superior de Agronomia, onde se licenciou. De regresso a Timor, assumiu o cargo de chefe dos Serviços de Agricultura, função que ocupava quando em 1975 rebentou a guerra civil. Durante a ocupação indonésia foi nomeado governador de Timor Leste, cargo que exerceu entre 1982 e 1992, o que levou a que muitos timorenses o acusassem de traição e de colaboracionismo com o ditador Suharto. Porém, muitos timorenses que passaram pelas prisões indonésias, sempre reconheceram o apoio que Mário Carrascalão deu às suas famílias e até às redes clandestinas, o que permitiu salvar centenas de vidas e manter viva a ideia da independência. Além disso, contribuiu para que centenas de timorenses estudassem em universidades indonésias e, sobretudo, foi o grande impulsionador do diálogo com a Resistência, tendo ele próprio tido encontros com o guerrilheiro Xanana Gusmão em 1983 e 1990, que abriram as portas ao processo que desaguou na independência de Timor-Leste.
Conheci o Engenheiro Mário Carrascalão e com ele convivi em diferentes locais e circunstâncias, designadamente na Fazenda Algarve, próximo de Liquiça, que é propriedade da sua família e onde, provavelmente, será sepultado no cemitério da família.
Biológica e culturalmente, Mário Carrascalão tinha tanto de timorense, como de português. Honrou esses dois legados. Com a sua morte, Timor Leste perdeu um dos seus filhos mais notáveis, mas Portugal também perdeu um dos seus grandes amigos timorenses.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Até o Medina aderiu ao populismo barato

A equipa de futebol do Benfica conquistou a Primeira Liga ou Liga NOS, no âmbito das competições organizadas pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional e esse facto gerou uma onda de grande alegria entre os benfiquistas. Foi a 36ª vez que o clube triunfou na prova máxima do futebol português, o que supera as 27 vitórias do FC Porto e os 18 triunfos do Sporting, mas também foi a primeira vez que a equipa conseguiu uma quarta vitória consecutiva ou tetracampeonato, um feito que os seus principais rivais já tinham conseguido. O Benfica é uma grande instituição desportiva com muitos milhares de adeptos em todo o mundo que festejaram o êxito da sua equipa de futebol com grande entusiasmo e a festa organizada na Praça Marquês de Pombal em Lisboa, que todas as televisões portuguesas transmitiram em directo, foi simplesmente grandiosa. Os festejos podiam ter acabado ali e acabavam muito bem.
Porém, o autarca Fernando Medina decidiu homenagear a equipa campeã nacional de futebol e exibi-la exactamente na mesma varanda onde José Relvas proclamou a República no dia 5 de Outubro de 1910. Portanto, no plano simbólico, tivemos o jogador Luisão equiparado a José Relvas e esta vitória do Benfica comparada à implantação da República. É demais, num tempo em que futebol já não é um desporto, mas sobretudo um negócio de jogadores e de acumulação de dívidas e de dúvidas. Medina sabe isso, mas cedeu.
Se fosse uma vitória de prestígio internacional talvez se justificasse esta homenagem, mas não foi o caso. A iniciativa de Medina divide os lisboetas e humilha os adeptos dos outros clubes da cidade. Medina abastardou aquela varanda e quer repetir a festa brevemente, segundo disse. Medina é um político inteligente e sensato, mas não resistiu à sua própria clubite, ao populismo e à demagogia eleitoral. A operação que montou serviu a sua ambição política, mas foi um tiro nos pés. Ao olhar para a Praça do Município cheia de gente a vibrar, Medina deve ter pensado nos muitos votos que ali estavam. Que pena. Eu pensava que o Medina era o meu autarca e que não alinhava no populismo barato.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

O Papa Francisco em visita a Portugal- III

A rápida viagem que o Papa Francisco fez a Portugal para visitar Fátima na condição de peregrino correu sem quaisquer problemas e, para os católicos, foi um acontecimento inesquecível.
As televisões acompanharam todos os passos do chefe supremo da Igreja Católica e todos os portugueses tiveram a oportunidade ver o entusiasmo com que o povo o acolheu e o saudou. A imprensa de vários países, sobretudo do sul da Europa e da América Latina, destacou esta peregrinação e nas suas edições publicou com grande destaque as imagens do Papa Francisco em oração no santuário de Fátima.
Porém, num caso ou noutro, como sucedeu com o diário galego El Progreso, que se publica em Lugo, a notícia foi ilustrada com uma fotografia que não é de cariz religioso, na qual o Papa Francisco e o Presidente da República Portuguesa conversam muito sorridentes. Esta fotografia demonstra que, para além dos seus aspectos religiosos, a visita do Papa Francisco também teve aspectos políticos.
No caso de Marcelo Rebelo de Sousa a aproximação faz todo o sentido porque ele é um católico praticante e porque, após a sua tomada de posse como Presidente da República em Março de 2016, realizara a sua primeira viagem oficial exactamente ao Vaticano, para além de repetidamente ter elogiado a figura excepcional do Papa Francisco. Portanto, muito bem.
No entanto, as televisões também mostraram algumas figuras políticas alinhadas na primeira fila das homenagens ao Papa e nem todas por dever protocolar. Algumas dessas figuras, independentemente de serem ou não católicas, poderiam ter estado no meio do povo, mas quiseram ser vistas na referida primeira fila apenas por interesse eleitoral, porque entenderam que aparecer ao lado do Papa deve dar votos. no futuro. Chama-se a isto demagogia sem escrúpulos.

domingo, 14 de maio de 2017

Portugal em festa para delírio do povo

Ontem foi um invulgar dia de festa para os portugueses e os jornais devem ter tido alguma dificuldade na escolha dos temas a destacar nas suas primeiras páginas. Durante a manhã e o princípio da tarde, o Papa Francisco esteve em Fátima onde recebeu o aplauso e o afecto de muitos milhares de pessoas emocionadas que o ovacionaram. Ao fim da tarde, o Benfica assegurou a vitória na Liga Portuguesa de Futebol e muitos outros milhares de portugueses encheram a Praça Marquês de Pombal para festejar um triunfo que aconteceu pela 4ª vez consecutiva. Finalmente, à noite, o cantor português Salvador Sobral ganhou o Festival da Eurovisão, o que nunca acontecera antes. Significa que acontecimentos de importância e de natureza bem diferentes convergiram para alegrar os portugueses e para gerar manifestações de enorme euforia.
Já não bastava a apreciada cohabitação do Presidente da República e do Primeiro-Ministro, nem o êxito no controlo das contas públicas ou a redução do défice orçamental, a descida do desemprego, o boom turístico e tantas outras coisas boas que nos estão a acontecer. Realmente, tudo parece correr bem em Portugal e, mais do que aquilo que nos dizem as estatísticas, fala a alegria da generalidade dos portugueses. A auto-estima e o orgulho lusitanos, que no ano passado atingiram um ponto alto quando a selecção nacional de futebol bateu a equipa francesa no seu próprio reduto de Paris, parece quererem manter-se num plano elevado. Ainda bem.
Perante um tão diversificado quadro de acontecimentos que merecem destaque, o jornal Público escolheu exactamente o entusiasmo e a alegria do povo para ilustrar a primeira página da sua edição de hoje, publicando expressivas fotografias desses acontecimentos. E saiu-se bem nessa escolha, o que poucas vezes acontece.

sábado, 13 de maio de 2017

A política económica de Trump e o futuro

A governação de Donald Trump está  a ser dominada pelo seu estilo autoritário, pela sua ignorância e pela acumulação de casos, uns na esfera internacional, mas outros na ordem interna. Os Republicanos, que se esperava fossem o seu principal suporte político, já começam a desesperar. A recente demissão de James Comey, o director do FBI, a poderosa agência que investiga as eventuais ligações da campanha eleitoral de Trump à Rússia de Putin, foi um dos casos que afectou a confiança da maioria dos americanos no homem que dirige o país desde 20 de Janeiro de 2017, muitos deles já desesperados por tardar o emprego que lhes foi prometido. 
De resto, a impopularidade de Trump e a desconfiança nas suas promessas económicas têm aumentado. A mais recente edição da prestigiada revista The Economist escolheu como tema principal a análise das políticas económicas prometidas por Donald Trump durante a campanha eleitoral que o conduziu à presidência dos Estados Unidos e que vêm sendo designadas pela expressão Trumponomics.
O título escolhido para esta edição – Trumponomics: what it is, and why it is dangerous – mostra como estão a aumentar as dúvidas quanto ao mérito das propostas económicas de Donald Trump e que poucos acreditam que elas possam fazer a América grande outra vez, como ele repetiu tantas vezes durante a sua caminhada para a Casa Branca.
A impulsividade e a superficialidade do estilo do Presidente dos Estados Unidos ameaçam a economia mas também o Estado de Direito, enquanto a revista acrescenta que Donald Trump está “a governar Washington como se fosse um rei e a Casa Branca a sua corte”. O seu egocentrismo e a sua necessidade de ser o centro das atenções estão a levá-lo a rodear-se de amigos e de fiéis que não o contrariam e a atacar todos os que se atravessam no seu caminho. Assim, as coisas não podem dar certas e ele próprio já veio reconhecer que “a Presidência é mais difícil do que pensava e que tem saudades da vida que levava antes”. Por tudo isto, há cada vez mais americanos a pensar que Donald Trump poderá não levar o seu mandato até ao fim. A Trumponomics parece estar condenada.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O Papa Francisco em visita a Portugal - II

O Papa Francisco chega hoje a Portugal para uma visita de cerca de 24 horas, em que estará em Fátima como peregrino.
Portanto, esta visita do “Papa argentino” tem um significado religioso, mas para além desse aspecto, tem também um importante significado político que interessa realçar.
O Papa Francisco é hoje o mais respeitado líder mundial que, através das suas exortações apostólicas e das suas encíclicas, sobretudo a Evangelli Gaudium (2013) e a Laudato Si (2015), tem expressado linhas de pensamento que pretendem dar uma renovada orientação à Igreja Católica, de forma a envolvê-la nos grandes desafios do mundo actual, o que parece não ser do interesse de muitos dos seus sectores, porventura mais conservadores ou mais distraídos com a evolução social do mundo. Essa também parece ser a postura mais comum da hierarquia da Igreja em Portugal, o que levou a revista Visão a dizer na sua última edição, que este Papa está muito à frente da Igreja portuguesa.
De facto, o Papa Francisco não se tem “escondido” dos problemas da Igreja e do mundo, nem tem ficado à espera das posições de Washington ou de Moscovo para tomar posições sobre os problemas da Humanidade. Assim, expõe o seu pensamento sobre a guerra e a paz, a pobreza e a desigualdade, o drama dos refugiados, a economia da exclusão e a idolatria do dinheiro, num continuado esforço pelo bem comum e pela paz social. Revela a sua preocupação sobre os cuidados a ter com a “casa comum”, fazendo duras críticas à devastação ambiental, ao modelo de desenvolvimento vigente e à falta de responsabilidade para com os mais pobres. Numa Igreja que muitas vezes tem esquecido os mais pobres e os mais desfavorecidos, o Papa Francisco parece erguer-se como um produto da Teologia da Libertação sul-americana, embora sem o seu conteúdo marxista.
Além de tudo isto, o Papa Francisco tem um estilo pessoal simples e austero, herdado da sua ordem religiosa, o que é do agrado dos portugueses. Num estudo recentemente divulgado, 91% dos portugueses consideram a acção do Papa Francisco como excelente ou boa e consideram-na inovadora ou revolucionária. Portanto, bem-vindo Papa Francisco!

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Da agro-Cristas à Cristas-vinte-estações

O Metropolitano de Lisboa apresentou um plano de acção operacional para a sua rede, anunciando que esta vai ter mais duas estações – Estrela e Santos – a inaugurar até 2022. A nova linha ligará o Rato ao Cais do Sodré e o custo desta obra é de 216 milhões de euros, com recurso a fundos comunitários e a um empréstimo a contrair junto do Banco Europeu de Investimento. O plano prevê, também, a aquisição de 33 novas carruagens, num investimento estimado de 50 milhões de euros, bem como a remodelação das estações de Arroios, Areeiro, Colégio Militar, Olivais e Baixa-Chiado com um investimento estimado em 16,2 milhões de euros e o prolongamento da Linha Vermelha com duas novas estações nas Amoreiras e em Campo de Ourique, que custará 186 milhões de euros e que terá que esperar por nova oportunidade. Este plano representa um esforço de investimento e uma valorização para a cidade de Lisboa mas, como qualquer plano, pode e deve ser criticado para que sejam escolhidas as melhores alternativas.
Porém, o anúncio de duas novas estações do Metropolitano serviu de pretexto para um dos mais ridículos exercícios de demagogia, quase ao nível do insulto à inteligência dos portugueses. A ambiciosa jovem que dirige o Centro Democrático e Social, que em tempos e sem qualquer formação específica aceitou dirigir o Ministério da Agricultura  onde ficou conhecida como agro-Cristas, quis dar nas vistas e, num acto de ignorância ou de inteligência muito limitada, decidiu divertir a Assembleia da República e criticar um plano que prevê duas novas estações do Metropolitano, propondo não duas, mas 20 novas estações. Vinte! Nem mais nem menos. Os deputados-cassete do seu partido aplaudiram. Poucas vezes assisti a tanta falta de senso na vida política portuguesa. A agro-Cristas vai ficar na nossa memória como a Cristas-vinte-estações. Bem merece essa designação.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O Papa Francisco em visita a Portugal - I

O Papa Francisco vem a Portugal no próximo fim de semana e essa visita já é o acontecimento do ano. A excitação nacional já é evidente nas agendas mediáticas, nas actividades editoriais e no merchandising alusivo à visita, como se verifica nas estações dos CTT ou nos balcões da Vista Alegre. O caso não é para menos. O Papa Francisco é hoje uma voz autorizada e um referencial de equilíbrio no mundo. Embora não se trate de uma visita oficial uma vez que o Papa estará no Santuário de Fátima como peregrino, as autoridades portuguesas estão a preparar a visita com muita atenção, até porque se espera que muitos milhares de católicos nacionais e estrangeiros assistirão às cerimónias de Fátima.
Uma das medidas extraordinárias de segurança adoptadas e que já entrou em vigor foi o encerramento das fronteiras terrestres por razões de segurança. No caso das fronteiras a norte do país, onde existem 16 postos fronteiriços, já estão encerrados 13 postos desde a meia noite de hoje e assim ficarão durante quatro dias. A saída do país será sempre livre, mas a entrada apenas poderá ser feita pela ponte internacional Tui-Valença do Minho ou pela estrada Verin-Chaves, podendo também ser utilizada a antiga ponte Tui-Valença que estará aberta apenas para peões e ciclistas. A imprensa galega, nomeadamente o diário Faro de Vigo, dá um grande destaque a estas restrições, dizendo que a medida afectará diariamente mais de 40.000 veículos que terão que ser controlados pela polícia portuguesa e que esse controlo irá obrigar a longas perdas de tempo. Porém, a reacção da imprensa galega a esta medida é de compreensão e mostra como já é muito grande a interacção económica e a integração cultural entre a Galiza e o norte de Portugal.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

As devastadoras inundações no Canadá

As grandes inundações que acontecem de vez em quando no mundo, sobretudo nas bacias fluviais da Índia e da China, são sempre devastadoras ou mesmo catastróficas. Porém, essas inundações também acontecem noutrás regiões, que são supostas estar melhor preparadas para enfrentar essas situações.
Assim acontece actualmente no Canadá, onde estão a ocorrer inundações devastadoras, como não se registavam há mais de cinquenta anos. Essas inundações estão a afectar a província do Quebec, tendo já sido registados alguns milhares de sinistros, incluindo alguns acidentes mortais, assim como o encerramento de escolas e de repartições públicas.
O governo do Quebec declarou hoje o estado de emergência em Montreal, depois do colapso de três diques de protecção situados no norte da cidade, mas também em Laval e noutras cidades canadianas, segundo informa o Journal de Montréal. Segundo foi anunciado oficialmente, haverá mais de quatro centenas de estradas intransitáveis, cerca de 2500 moradias que foram inundadas em 146 localidades e mais de 1500 pessoas que foram evacuadas.
Desde o passado sábado que as Forças Armadas passaram a cooperar com a Protecção Civil, sobretudo nos trabalhos de reforço preventivo de diques e na reparação dos que colapsaram, não só na região de Montreal mas também em toda as áreas que marginam o rio Otawa, entre as cidades de Otawa e Montreal. As autoridades têm justificado a anormalidade desta situação com as chuvas excepcionais que se têm verificado nas últimas semanas e com o inverno rigoroso que gerou muita neve que está agora a derreter. Tem sido tanta água a inundar a província do Québec, que os jornais canadianos trouxeram o assunto para as suas primeiras paginas.

A Europa respirou de alívio

As eleições presidenciais francesas escolheram ontem um novo Presidente da República. Emmanuel Macron e a sua plataforma En marche! venceram as eleições. A França nunca teve um Presidente tão jovem e nunca tinha eleito alguém sem o apoio expresso dos partidos políticos. É uma novidade absoluta e, depois de figuras emblemáticas como De Gaulle ou François Miterrand, o que se pode dizer é que a política francesa já não é o que era. Meio mundo respirou de alívio porque Emmanuel Macron venceu o radicalismo de Marine Le Pen, o que pode significar um novo impulso no projecto europeu, mas também uma nova maneira de fazer política, com mais moralização e mais ética, mais responsabilidade e com mais esperança num mundo mais seguro, com mais liberdade, mais justiça e melhor defesa do ambiente.
Macron foi festejar a sua vitória no átrio do Museu do Louvre onde chegou ao som do Hino da Alegria de Beethoven, que foi adoptado como hino da União Europeia. Esse foi um forte sinal sobre a sua identificação com os ideais da Europa e com um novo estilo de fazer política, tendo então afirmado que não iria ceder ao medo nem ao divisionismo e que nenhum obstáculo o iria deter.
O seu discurso de vitória foi muito prudente, até porque Emmanuel Macron não tem maioria para governar. Ele sabe que muitos franceses o escolheram como um mal menor e que a derrota dos republicanos e dos socialistas pode ser apenas um caso conjuntural. Por isso, pediu votos nas eleições legislativas de Junho para os candidatos da sua plataforma política para construir uma verdadeira maioria parlamentar que permita concretizar a mudança que ele prometeu e a que o país aspira.
Faltam seis semanas para as eleições parlamentares e Macron não vai poder descansar. O desafio que tem pela frente é enorme e muito complexo, até porque a sua adversária agora derrotada não lhe vai dar tréguas, tal como os partidos tradicionais que vão querer recuperar da humilhação por que passaram. Sim, a Europa respirou de alívio mas, como se diz no futebol, ainda falta muito tempo de jogo.